O cemitério protestante de Feriçe: uma tranquila necrópole europeia no coração de Istambul
O cemitério protestante de Feriköy é um recanto invulgar de Istambul, onde, à sombra de ciprestes e plátanos antigos, repousam lado a lado diplomatas britânicos, músicos prussianos, cervejeiros suíços, missionários americanos e cientistas alemães. O nome oficial em latim é Evangelicorum Commune Coemeterium, «Cemitério Evangélico Comum». Situa-se no bairro de Feriköy, no distrito de Şişli, a cerca de três quilómetros a norte da Praça Taksim, e é membro oficial da Associação de Cemitérios Significativos da Europa (ASCE). O Cemitério Protestante de Feriköy recebe visitantes desde 1859 e constitui uma espécie de museu ao ar livre de escultura funerária: aqui estão reunidos monumentos desde o século XVII até aos dias de hoje, e no total repousam no seu solo cerca de cinco mil pessoas.
História e origem do Cemitério Protestante de Feriköy
A história deste local começa muito antes de o primeiro caixão ter sido trazido para Feriköy. Até meados do século XIX, todos os europeus em Constantinopla eram enterrados numa extensa necrópole atrás de Pera, que recebeu o nome romântico de Grand Champs des Morts — «Grandes Campos dos Mortos». Esta «cidade dos mortos» estendia-se desde a atual Praça Taksim em direção ao norte e era tão conhecida na Europa que inspirou reformadores do setor funerário de Paris a Viena. A secção franca, ou seja, a da Europa Ocidental, tinha a atmosfera mais reconhecível: ciprestes, estelas de mármore com inscrições em latim, cruzes de diferentes confissões.
Mas o crescimento vertiginoso de Istambul jogou contra o antigo necrópolo. De 1840 a 1910, o território entre Taksim e Şişli transformou-se de campos abertos e jardins numa densa área residencial. Os «Grandes Campos dos Mortos» ficaram mesmo no caminho da cidade em expansão. Já em 1842, o missionário americano William Goodell descrevia com amargura como teve de transportar o corpo do seu filho de nove anos, Constantino Washington, falecido de febre tifóide: «A sepultura foi cavada profundamente, e o caixão mal tinha secado. Tudo estava silencioso e tranquilo… Adeus, meu querido filho!».
Em 1857, por decreto do sultão Abdul-Mejid I, o governo otomano doou terras em Feriköy às principais potências protestantes da época: Grã-Bretanha, Prússia, EUA, Países Baixos, Suécia, Noruega, Dinamarca, cidades da Liga Hanseática e Grão-Ducado de Oldenburg. O primeiro enterro ocorreu em novembro de 1858, e o cemitério foi oficialmente inaugurado no início de 1859. Em julho de 1863, os restos mortais de mais de uma dúzia de americanos, incluindo o pequeno Constantine Goodell, foram exumados da antiga secção francesa e transferidos para Feriköy, juntamente com as suas lápides. Os antigos «Grandes Campos dos Mortos» foram transformados num parque público — em 1869, abriu-se aqui o Jardim Taksim, no local onde hoje se encontra a praça com o mesmo nome.
Arquitetura e o que ver
À primeira vista, o Cemitério Protestante de Feriköy parece um tranquilo quadrado verdejante atrás de um alto muro de pedra. Mas basta passar pelo portão principal para entrar num espaço onde cada metro conta uma história à parte. O território foi organizado segundo os padrões da Europa Ocidental de meados do século XIX: alamedas planas de cascalho, quarteirões bem organizados, sebes baixas de buxo e louro. Os ciprestes e os plátanos proporcionam uma sombra densa mesmo ao meio-dia de agosto, enquanto as lilases, glicínias e rosas em flor suavizam a solenidade do mármore branco.
Monument Row: desfile de esculturas funerárias
A principal atração é a parede oriental, ao longo da qual se estende a chamada Monument Row, a «Aléia dos Monumentos». Para aqui foram transferidas, em diferentes épocas, as lápides mais expressivas do antigo cemitério franco e colocadas em fila, como se fossem peças de exposição num museu ao ar livre. Aqui é possível ver cartuchos barrocos do século XVII, urnas neoclássicas, arcos ogivais góticos, anjos em estilo romântico e modestas estelas modernistas do século XX. Para o viajante de língua russa, isto lembra um passeio pelo cemitério luterano de Smolensk ou pelo cemitério de Volkov, em São Petersburgo: o mesmo silêncio, o mesmo cascalho fino sob os pés, a mesma mistura de apelidos europeus e o céu oriental sobre a cabeça.
Secção protestante arménia
No canto sudoeste encontra-se uma secção separada para os arménios protestantes. Esta está separada da área principal por um muro baixo — outrora, esta distinção era fundamental: os arménios eram considerados súbditos otomanos e enterrá-los juntamente com estrangeiros seria uma violação das regras do império. Hoje, essa distinção mantém-se como parte da memória histórica. Nesta mesma secção encontram-se lápides de gregos, árabes, assírios e dos próprios turcos protestantes, incluindo ex-muçulmanos que se converteram ao cristianismo. As epígrafes estão gravadas em uma dezena de idiomas: armênio, grego, árabe, sírio, inglês, alemão e turco otomano com escrita árabe.
Memorial Militar da Commonwealth
Na parte central, há um único túmulo militar da Commonwealth: aqui repousa um oficial dos serviços secretos britânicos, falecido em 1945, nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Uma lápide branca padrão com uma cruz e uma inscrição, típica de todos os cemitérios da Commonwealth War Graves Commission, destaca-se contra o pano de fundo de monumentos privados de estilos variados.
Estilos dos monumentos — do barroco ao modernismo
No cemitério estão representadas praticamente todas as correntes da arquitetura memorial europeia da Era Moderna. Capelas-mausoléus familiares em estilo neogótico coexistem com cruzes ascéticas sobre pedestais baixos. Encontram-se estátuas de anjos em tamanho real, musas chorosas, livros de mármore abertos com epitáfios e colunas simbólicas, partidas ao meio — um símbolo popular no século XIX de morte prematura. Merecem uma visita especial as lápides das famílias levantinas — os Beaumont, os Fruchterman e os Lang — cujo papel na vida empresarial e cultural de Istambul dos séculos XIX e XX foi enorme. Muitas epitafias estão redigidas sob a forma de poemas curtos ou citações bíblicas; encontram-se inscrições em sete ou oito línguas lado a lado numa única lápide — inglês, alemão, holandês, francês, sueco, húngaro, latim e grego.
Iniciativa de preservação e renascimento do cemitério
Em 2018, residentes locais e descendentes dos falecidos criaram a Feriköy Protestant Cemetery Initiative — uma organização voluntária dedicada à preservação do cemitério como local de memória, paisagem histórica e zona verde urbana. Em 2021, as administrações de sete consulados-gerais reconheceram oficialmente a Iniciativa como sua parceira. Desde então, realizam-se visitas guiadas, restauram-se lápides e publica-se um boletim com histórias de túmulos específicos. Para o viajante, isto significa que o recinto não está simplesmente «aberto durante o dia», mas está vivo: encontram-se placas com códigos QR, os jardineiros cuidam das sebes e, nos dias úteis, é possível participar numa pequena visita guiada em grupo com um voluntário historiador.
Factos interessantes e lendas
- Aqui está sepultado Franz Karl Beaumont (1857–1903) — um cervejeiro suíço que esteve na origem da indústria cervejeira turca moderna. É precisamente o seu apelido que dá nome ao bairro de Beaumont e à marca de cerveja homónima, conhecida por muitos que já passearam por Beyoğlu.
- Entre os túmulos encontra-se a lápide de Paul Lange (1857–1919), músico prussiano e último maestro da corte do Império Otomano. Dirigiu orquestras e coros em Istambul durante quase quarenta anos e, segundo as memórias dos seus contemporâneos, dirigiu até mesmo durante a Primeira Guerra Mundial, quando na sala se encontravam oficiais alemães e turcos.
- No cemitério repousa Betty Karp (1895–1974) — funcionária da embaixada americana e espiã —, bem como o historiador britânico Norman Stone (1941–2019), conhecido pelos seus livros sobre a história da Primeira Guerra Mundial e da Europa Oriental, que lecionou durante muitos anos na Universidade Bilkent, em Istambul.
- Aqui também está sepultado Elias Riggs (1810–1901), missionário e linguista americano que trabalhou na tradução da Bíblia para os idiomas búlgaro e arménio — os seus trabalhos continuam a ser utilizados nos serviços religiosos.
- Uma das histórias mais comoventes está ligada ao nome de Constantine Washington Goodell: o menino foi enterrado duas vezes e transferido uma vez, e foi precisamente o seu reenterro em 1863 que é considerado o início simbólico de uma nova vida do cemitério — a transferência da antiga memória europeia para um novo local.
- Entre os enterrados está Ernest Mambury (1878–1953), um cientista suíço especialista em bizantinologia, autor do clássico guia «Constantinople: Guide Touristique», bem como Hilary Sumner-Boyd e John Freely, coautores do famoso «Strolling through Istanbul» — sem exagero, o guia da cidade mais citado em língua inglesa.
Como chegar
O cemitério protestante de Feriköy fica no bairro de Şişli, a cerca de 3 quilómetros a norte da Praça Taksim. A forma mais conveniente é apanhar o metro da linha M2 (linha verde). Deve viajar a partir de Yenikapı ou Taksim até à estação Osmanbey ou Şişli-Mecidiyeköy, saindo pelo bairro de Feriköy. De ambas as estações até ao portão do cemitério são 10 a 15 minutos a pé pelas ruas do bairro residencial; pode orientar-se com o navegador nas coordenadas 41.0539, 28.9839. O caminho a partir do metro passa pelo bazar de Feriköy e por vários edifícios de habitação do final do século XIX — o próprio percurso já faz parte do passeio.
A partir do aeroporto de Istambul (IST), o mais conveniente é apanhar o metro M11 até à estação Kağıthane, fazer transbordo para a linha M7 e seguir até Mecidiyeköy — no total, cerca de uma hora com a mala. A partir do aeroporto Sabiha Gökçen (SAW), é mais rápido apanhar o autocarro Havabus até Taksim e, a partir daí, uma ou duas paragens no metro M2. Se for de táxi, diga ao motorista «Feriköy Protestan Mezarlığı» ou «Şişli Protestan Mezarlığı» — os taxistas turcos geralmente conhecem ambas as opções. Perto, do outro lado da rua, encontra-se o cemitério católico de Pangaltı, que pode visitar ao mesmo tempo. Quando o tempo está bom, é possível ir a pé a partir de Taksim em cerca de 35 a 45 minutos: o percurso sobe pela rua Halaskargazi, passa pela igreja arménia de Surb Astvatsatsin e desce até Feriköy — um dos passeios mais pitorescos pela antiga Pera.
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é a primavera (abril–maio), quando as lilases e as glicínias florescem, e o outono (setembro–outubro), com a sua luz dourada e suave. No verão, em Şişli, faz calor e há muita gente, mas sob os ciprestes está sempre mais fresco; no inverno, o cemitério está aberto, mas os caminhos podem ficar escorregadios após a chuva. Reserve 60 a 90 minutos para o passeio e, se se interessar por epitáfios e estilos de monumentos, reserve duas horas.
Vista-se de forma respeitosa: calças compridas ou saia, ombros cobertos. Não se trata de uma exigência religiosa, mas sim de uma regra de decoro para um cemitério em funcionamento. É possível e recomendável tirar fotografias, mas evite fotografar famílias que visitam os túmulos e não suba aos pedestais para obter um ângulo melhor — muitos monumentos do século XIX são frágeis. O horário de funcionamento pode sofrer alterações; antes da visita, consulte o site da Feriköy Protestant Cemetery Initiative ou ligue para um dos consulados-gerais que integram a administração (Alemanha, Reino Unido, EUA, Países Baixos, Suécia, Hungria, Suíça) — a presidência muda anualmente.
Combine o passeio com a visita a locais vizinhos: o cemitério católico de Pangalta do outro lado da rua, o bairro de Feriköy com as suas lojas de antiguidades e o mercado de pulgas aos domingos, bem como Bomonti com a antiga cervejaria-loft e os seus restaurantes. É possível descer a pé até Taksim em 40 minutos — o percurso passa pela rua Halaskargazi, uma das artérias mais atmosféricas da antiga Pera. Para o turista de língua russa, cansado dos bazares barulhentos e das mesquitas lotadas, o cemitério protestante de Feriköy é uma oportunidade rara de sentir aquela «outra» Turquia: cosmopolita, levantina, multilingue, onde, sob o mesmo céu, coexistiram durante séculos europeus e otomanos, e onde a memória dessa coexistência ainda hoje se lê nas antigas lápides de mármore.